18 de Novembro de 1991.
Há precisamente 20 anos fechava oficialmente a linha de eléctricos da Carris para o Poço do Bispo.
Na prática, o último eléctrico que circulou até à Praça David Leandro Silva fê-lo na véspera, no dia 17 de Novembro de 1991, um Domingo, na carreira 3, na viagem que saíu do Arco do Cego às 21:30. Por uma coincidência notável era precisamente o dia em que a linha completava o seu 90º aniversário!
Na sexta-feira anterior, dia 15, tinham ficado no carbarn os carros da 16, carreira que à época já só circulava aos dias de semana e apenas entre a Rocha [de Conde de Óbidos] ("provisoriamente") e o Poço do Bispo, numa pálida imagem do que tinha sido a carreira até 4 anos antes, quando, na sua máxima extensão, percorria quase toda a linha marginal do Poço do Bispo a Algés, deixando de fora apenas o troço daí até à Cruz Quebrada, feudo do eléctrico 15. Entre 1987 e o encurtamente à Rocha, teve terminal em Belém.
Entrei no autocarro e rapidamente procurei nos placards dos avisos informação sobre o que se passava. Encontrei logo o que pretendia e lá estava, escrito em letras bem vísiveis, que a minha linha de eléctricos acabava, sendo as carreiras que ainda por lá circulavam substituídas pelos autocarros 104 e 105.
Ficava assim desactivado o troço de cerca de 2,5 Kms entre a Madre de Deus e o Poço do Bispo. Em funcionamento mantinha-se o troço entre a Rua da Alfândega e a Madre de Deus, seguindo depois pela Avenida Afonso III até ao Alto de São João, o qual era na altura "ocupado" pela nova carreira 23 (Rua da Alfândega-Praça do Chile), carreira resultante da divisão, já em 1991, da carreira 24 (Rua da Alfândega-Carmo) em duas (esta 23 e um 24 encurtado, que circulava entre o Carmo e o Alto de São João). Esta nova carreira 23 pouco mais tempo durou, tendo terminado no início de Outubro do ano seguinte, data em que ficou encerrada definitivamente toda a linha marginal oriental, exceptuando o troço entre a Praça do Comércio e terminal da Rua da Alfândega, alterado nessa época para servir os carros vindos do lado da Praça do Comércio e não de Santa Apolónia.
Já o 105, nascido de raíz, substituía o eléctrico 3 entre o Martim Moniz e o Poço do Bispo. De fora ficava o troço entre o Martim Moniz e o Arco do Cego, já servido pela carreira 40 de autocarros e o serviço de fins-de-semana e feríados, já que o 105 circulava apenas aos dias úteis.
As coisas funcionaram assim durante cerca de 8 anos, com alterações menores de percurso no caso do 105 e com prolongamentos para novas zonas de Chelas no caso do 104.
Em 1999 a carreira 105 fundiu-se com a 25A, criando-se assim uma nova carreira 105, já a funcionar durante toda a semana e entre o (já) histórico terminal do Martim Moniz (excepto aos fins-de-semana e feriados, altura em que terminava na Praça do Comércio) e a Quinta do Morgado (Encarnação).
As coisas mantiveram-se estáveis por mais 7 anos, até Setembro de 2006, altura em que entra em cena a primeira fase da Rede 7 a qual, por motivos bastante controversos e ainda hoje mal explicados, terminou com a carreira 105, deixando de existir, pela primeira vez em mais de 100 anos, ligação entre o Poço do Bispo e a Baixa pelo interior do Beato.
Para trás ficaram as memórias e os planos nunca concretizados de levar a linha mais além, primeiro até aos Olivais (velhos), mais tarde, ainda nas décadas de 1970 e de 1980, de modernizar a linha e transformá-la numa linha de eléctricos rápidos até Moscavide.
Hoje a rede de transportes da zona está como no resto da cidade, a cativar poucos clientes e com as ruas onde antes passavam os eléctricos completamente atravancadas de automóveis estacionados em todos os recantos existentes.
Dos eléctricos resta a lembrança.
ANEXOS
MAIS INFORMAÇÕES
Para quem queira saber mais sobre a História desta linha, das suas carreiras (indicadas por *) e das carreiras que a substituíram (indicadas por **) ou foram referidas neste texto....
De A minha página Carris de Luís Cruz-Filipe:
As coisas funcionaram assim durante cerca de 8 anos, com alterações menores de percurso no caso do 105 e com prolongamentos para novas zonas de Chelas no caso do 104.
Em 1999 a carreira 105 fundiu-se com a 25A, criando-se assim uma nova carreira 105, já a funcionar durante toda a semana e entre o (já) histórico terminal do Martim Moniz (excepto aos fins-de-semana e feriados, altura em que terminava na Praça do Comércio) e a Quinta do Morgado (Encarnação).
As coisas mantiveram-se estáveis por mais 7 anos, até Setembro de 2006, altura em que entra em cena a primeira fase da Rede 7 a qual, por motivos bastante controversos e ainda hoje mal explicados, terminou com a carreira 105, deixando de existir, pela primeira vez em mais de 100 anos, ligação entre o Poço do Bispo e a Baixa pelo interior do Beato.
A Praça David Leandro da Silva, na actualidade e o que resta da raquete do Poço do Bispo, uma verdadeira armadilha para os condutores, principalmente de veículos de duas rodas (Outubro de 2009) |
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Par de olhais na Cç. Cruz da Pedra. O olhal superior mal se vê na sombra, o inferior ainda ostenta parte do cabo de sustentação e um isolador (Setembro de 2011) |
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Par de olhais na Rua da Madre de Deus. O de cima não é muito comum (mais parece um camarão). 20 anos depois ainda se vêem restos dos cabos de sustentação (Setembro de 2011) |
Hoje a rede de transportes da zona está como no resto da cidade, a cativar poucos clientes e com as ruas onde antes passavam os eléctricos completamente atravancadas de automóveis estacionados em todos os recantos existentes.
Dos eléctricos resta a lembrança.
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Eléctrico 227 na Rua de Xabregas, a 10 de Setembro de 1990, numa viagem de recolha para Santo Amaro. Foto de Christian Wenger |
ANEXOS
MAIS INFORMAÇÕES
Para quem queira saber mais sobre a História desta linha, das suas carreiras (indicadas por *) e das carreiras que a substituíram (indicadas por **) ou foram referidas neste texto....
De A minha página Carris de Luís Cruz-Filipe:
- * Carreira de eléctricos 3
- * Carreira de eléctricos 9 (e 9A)
- Carreira de eléctricos 15
- * Carreira de eléctricos 16
- Carreira de eléctricos 18
- * Carreira de eléctricos 21
- * Carreira de eléctricos 23
- * Carreira de eléctricos 24 (e 24A)
- Carreira de eléctricos 25
- Carreira de autocarros 25A
- * Carreira de eléctricos 27
- Carreira de autocarros 40
- ** Carreira de autocarros 104
- ** Carreira de autocarros 105
- * Carreira de eléctricos 16
- * Carreira de eléctricos 23
- * Carreira de eléctricos 24
- Carreira de autocarros 25A
- Carreira de autocarros 40
- ** Carreira de autocarros 105
- * Carreira de eléctricos 3 (até 1975 e posterior a 1975)
- * Carreira de eléctricos 9 (e 9A)
- Carreira de eléctricos 15 (até 1996 e posterior a 1996)
- * Carreira de eléctricos 16
- Carreira de eléctricos 18 (posterior a 1992)
- * Carreira de eléctricos 21
- * Carreira de eléctricos 24 (e 24A)
- Carreira de eléctricos 25 (posterior a 1996)
- * Carreira de eléctricos 27
- Coisas de outros tempos - 20 de Outubro de 2008
- Memórias eléctricas - 17 de Novembro de 2009
- Quotidiano - 25 de Novembro de 2009
- Electro-saudosismo - 4 de Dezembro de 2010
CURIOSIDADE
Na segunda metade da década de 1980, um grupo musical gravou um disco no Teatro Ibérico, em Xabregas, tendo todas as gravações sido feitas durante a noite e com grandes condicionamentos para evitar que o ruído da passagem dos eléctricos ficasse registado. Quais o grupo e o disco a que me refiro?
DIAGRAMAS
Para os maluquinhos, como eu, aqui ficam diagramas das zonas mais interessantes da linha (terminais e troço de via única) o mais aproximado possível da realidade (foi feito com base no que me lembro, por isso podem existir erros - e certamente que os há). Todos os diagramas tiveram por base imagens retiradas do Google Maps. Por já não serem "do meu tempo", não represento a agulha (e penso que linha de resguardo) que existiu na Estação de Santa Apolónia, em frente ao Museu Militar e os troços de via única que existiram sob a Ponte de Xabregas (até à década de 1950) e no Beato (desconheço por completo a época em que a mesma deixou de existir. Já vi referências a cerca de 1970, mas sem confirmação). Qualquer tentativa de representação desses três pontos seria meramente especulativa.
As siglas usadas são:
- A - Paragem de autocarro
- AE - Paragem conjunta de autocarro e eléctrico
- AS - Alto de São João
- E - Paragem de eléctrico (no caso de paragens desdobradas, são indicadas as carreiras)
- MD - Madre de Deus
- PB - Poço do Bispo
- PC - Praça do Comércio
- SA - Santa Apolónia
- X - Xabregas
Terminal dos C.Ferro, na Rua da Bica do Sapato A localização quer das agulhas, quer das paragens é aproximada. |
FONTES CONSULTADAS
- A minha página Carris de Luís Cruz-Filipe
- História das Carreiras da Carris de Luís Cruz-Filipe
- Eléctricos... de Henrique Marques
- As fotos dos anos 1980 e 1990 foram retiradas de BahnBilder.de - Strassenbahn Lissabon Fotos
- As fotos para os diagramas da linha foram retiradas do Google Maps
- E, claro, a minha memória de Xabregano adoptado e de utente da linha do Poço do Bispo
Boa noite,
ResponderEliminarParabéns, excelente trabalho e muito bem documentado.
Em conclusão, o eléctrico é um meio de transporte que tem vindo a perder terreno, o que é uma pena.
tendo em conta que as duas carreiras que frequento estão quase sempre cheias;
que é um transporte ecológico,
que a relação do utente com o espaço e com o tempo é muito mais interessante que em qualquer outro meio de transporte; que faz parte do nosso património;
A questão que ponho é a seguinte: em vez de suprimir carreiras, não seria mais inteligente repôr muitas das que estão aqui descritas? Adicionalmente e sabendo que é um meio de transporte muito apreciado pelos turistas, esta seria uma boa maneira de favorecer a acessibilidade e outras zonas de Lisboa.
Obrigado Cristina pelo seu comentário.
ResponderEliminarO eléctrico tem de facto perdido terreno, mas temos que ser realistas: linhas como as que existiam (e como ainda existem) em Lisboa são coisa do passado!
Os veículos sobre carris têm que circular sempre em faixa dedicada para que possam cumprir a sua tarefa de forma óptima e que é o que acontece em todas as cidades que ainda têm redes de eléctrico dignas desse nome.
Pessoalmente já fui muito mais defensor dos eléctricos de Lisboa do que sou hoje, preferindo a sua substituição por autocarros em locais onde estes cumpram melhor o serviço que manter "artificialmente" uma linha de eléctrico que não é capaz de funcionar (mesmo quando a culpa não é dos eléctricos) ou que nem sequer capta clientes suficientes para justificar a sua manutenção. Aliás, olhando para a actual rede, parece-me mais que o que ainda existe é mais por motivos turísticos que por motivos de manutenção de uma rede de transportes de uma cidade como Lisboa.
Mesmo o viajar de eléctrico já não é para mim aquele prazer que sentia antigamente. Falei disso num post que fiz em Outubro e que por lapso (este post já se encontrava quase feito) não foi aqui referido: http://iberista.blogspot.com/2011/10/gostava-de-andar-de-electrico.html
Quanto à reposição das carreiras aqui descritas...
O que fazia falta não seria propriamente as aqui descritas, as quais foram fruto de uma época, em que a cidade era bem diferente da actual. Assim, e falando directamente das carreiras:
3 (Arco do Cego-Poço do Bispo, via Baixa/Almirante Reis): actualmente não vejo qualquer necessidade numa carreira com este trajecto (seja ela de eléctrico ou de autocarro);
16 (Algés/Belém - Poço do Bispo): esta sim, seria uma carreira bem útil, desde que funcionasse em faixa própria e fosse prolongada até, pelo menos, à Estação do Oriente. Quanto ao lado ocidental dela, poderia ficar na Baixa (ou até fundir-se com o 15);
24 (Carmo - Rua da Alfândega), mais tarde 23 (P. Chile - Rua da Alfândega): concordo que faz falta uma ligação entre a zona do Alto de São João, via Afonso III, a Santa Apolónia, para ligação ao metro. Poderia ser feita por autocarros.
27 (Campolide - Poço do Bispo): esta ligação é actualmente feita quase na integra pela carreira 742 de autocarros e completada pela 718. Aliás, quando ela acabou, foi substituída por mais um autocarro na então carreira 18 de autocarros.
Claro que mesmo assim tenho boas e grandes memórias destes e doutros eléctricos, mas, quem sabe, se isso não será apenas fruto da idade que eu tinha na altura em que os usei?
Raquete do Poço do Bispo - A raquete do Poço do Bispo era dupla. O "loop" exterior é como desenhou, mas havia outro loop interno que cortava o jardim ao meio, no sítio onde diz haver restos de via.
ResponderEliminarEste pormenor permitia manobras de ultrapassagem entre os carros das diversas carreiras que faziam ali término (3-16-27).
Em frente à Estação de Santa Apolónia no local onde hoje fica a praça de táxis também existiu um pequeno ramal de inversão, contudo em meados dos anos 70, pelo menos, já estava desactivado.
Obrigado Luís Howell pelos seus esclarecimentos.
ResponderEliminarDe facto esse loop interno já não é do meu tempo (ou se o é, eu devia ser muito novo, pois não fixei a sua existência).
Só me lembro dessa manobra de ultrapassagem ser feita usando uma das duas linhas que existiam do lado da Abel Pereira da Fonsaca. Geralmente os eléctricos estacionavam na linha da direita (junto ao passeio) e usavam a da esquerda para ultrapassarem.
De Santa Apolónia não me lembro de nada do que lá estava antes daquilo que existe ainda hoje (curiosamente lembro-me dos autocarros do 13 a fazerem o trajecto provisório durante as obras, via Av. Infante D. Henrique).
Parabéns! Está um trabalho notavelmente rigoroso. Ainda me lembro daqueles terminais dos Caminhos de Ferro e de Xabregas. Deste, o do "tlim-tlim Xabregas", é que tenho uma memória algo diferente, se bem percebi o seu esquema: tinha um traçado idêntico ao dos Caminhos de Ferro e os restos de ambos foram levantados juntamente com toda a restante linha, entre Santa Apolónia e o Poço do Bispo, aquando de requalificação da via, por ocasião da Expo 98.
ResponderEliminarJá agora, uma observação: em rigor, o "adequado" para os eléctricos, nos tempos actuais, não é que corram apenas em via exclusiva, mas uma combinação das duas modalidades. Isso é adivinhável em Lisboa, sem dúvida, mas é confirmável em Viena, Praga, Budapeste... Em Berlim, por exemplo, o eléctrico (articulado mais maneirinho que os nossos) chega a sair "repentinamente" da via exclusiva, assente em cascalho, como os comboios, e entra por ruas do tipo Passos Manuel ou Dona Estefânia, em Lisboa, fazendo paragens normalíssimas, como as que cá conhecemos. A questão dos transportes públicos urbanos, mormente no que se refere a eléctricos, ocupa-me sempre a atenção quando vou a um "país civilizado" e - é triste - é também assim que discirno com lucidez como mentem com quantos dentes têm na boca quando ouço ou leio o que dizem os responsáveis em sede de pretexto para não deixar os eléctricos repor o pé (a roda) em ramo (em carril) verde.