segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Coisas de outros tempos

Numa noite destas, em que o cansaço abundava, mas o sono teimava em não aparecer, fiquei, como é normal nestas alturas, a pensar em coisas diversas e dei comigo a recordar-me da Lisboa que eu conheci quanto era miúdo e que desapareceu ou quase.
Uma das coisas de que me recordei foi de expressões que eu ouvia muito em criança e em adolescente e que não oiço há muito tempo. Todas elas, ou quase, tinham "nascido" com os eléctricos e, tal como estes, quase desapareceram do vocabulário lisboeta, trocadas pelos bués e outras coisas assim.
Quem é que ainda hoje usa o "vai a 9" para se referir a alguém ou alguma coisa que vai muito depressa (ou, como se diz agora, com "bué da speed")? Este "vai a 9" teve origem nos 9 pontos dos controllers (reguladores de velocidade) que equipavam a maioria dos eléctricos da Carris (havia outros modelos com menos pontos). O 9º ponto correspondia à velocidade máxima. Nunca mais ouvi ninguém dizer este "vai a 9".
Outra que nunca mais ouvi foi o "levado da breca", que é como quem diz, "é tramado". O que é a breca? A breca é uma aportuguesamento do break inglês e este break era simplesmente o disjuntor dos eléctricos. Quem andou nos antigos eléctricos da Carris lembra-se com toda a certeza daquela caixa preta que ficava no tecto das plataformas mesmo por cima dos guarda-freios. Essa caixa era o disjuntor do eléctrico e sempre que o guarda-freio metia mais potência nos motores do que a que devia o resultado era certo: um estouro do disjuntor de ensurdecer todos os que viajavam naquela plataforma. E lá se ia a breca! Recordo-me de uma dessas ocasiões, na Rua da Prata, ia eu com a minha irmã. O eléctrico entrou na Rua da Prata e só parou no primeiro semáforo. Daí para a frente foi sempre a andar sem parar e sem tirar pontos. Só me lembro de ter dito à minha irmã qualquer coisa como ou "vai estoirar" ou "tapa os ouvidos" (aqui a memória varreu-se-me) e BANGUE, lá se foi a breca. Ela saltou do banco e quando "aterrou" perguntou-me "como é que sabias?". Fácil. O barulho de um motor daqueles em sobrecarga era bem característico!
Havia ainda expressões que para mim sempre foram um enigma, e que nunca entendi o porquê da sua existência. Uma delas era o "tlim-tlim, Xabregas". Porquê Xabregas? O "tlim-tlim" sei o que é: é uma onomatopeia para o som da campaínha do eléctrico. Quando os condutores (nome que se dava aos cobradores) davam o sinal de estar tudo em condições para continuar viagem puxavam duas vezes o cordão de couro que ligava à campaínha, fazendo assim o característico "tlim-tlim". Incialmente isto acontecia em todos os eléctricos, mas eu já sou da época em que só nos eléctricos com reboque é que isso se fazia. Fica por explicar o porquê do "Xabregas" e não outra zona qualquer.
Uma das coisas mais características da Carris desses tempos (que não estão assim tão longe quanto isso) era o famoso "Ssssanta Apolónia" que os condutores gritavam sempre que o autocarro (curiosamente não me lembro disso nos eléctricos) chegava à paragem que servia a estação. Os "sss" que eu coloquei a mais em Santa têm a sua razão de ser: eles diziam aquilo de uma maneira que parecia que faziam sempre um compasso de espera entre o "S" e o "anta", soando aquela sílaba mais prolongada que as restantes. Naquela época ainda havia muita gente a viajar de comboio entre Lisboa e a terrinha e sempre bem carregados de todo o tipo de bagagens. Era um pavor nos dias em que se passava em Santa Apolónia poucos minutos depois da chegada de um comboio. Primeiro que se saísse dali...
E como isto é exactamente como as cerejas, passei rapidamente das expressões para os hábitos. Lembrei-me daquele entroncamento da Cç. Cruz da Pedra, Rua Nélson Barros e Rua da Madre de Deus, onde os eléctricos da carreira 16 (com reboque) usavam as agulhas do entroncamento para inverter a sua marcha, com uma complicada manobra, atendendo ao restante trânsito, que implicava uma marcha-atrás em pleno cruzamento!
E pelo meio ainda havia os "putos da Patrício Prazeres" que, como eu, aproveitavam a baixa velocidade dos eléctricos naquele ponto para atravessarem o cruzamento, caminhando ao lado dos mesmos. Ai se os nossos pais adivinhassem...!
Estou a ver que estou muito saudoso. Estarei a ficar velho?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Massagens chinesas

Tenho andado aflito do meu ombro direito, sequelas da luxação que sofri em Setembro do ano passado. Tenho também andado com dores na coluna, na região lombar, dores essas que estão a desenvolver-se numa ciaticazinha de me fazer prender a perna!
Várias pessoas me sugeriram massagens chinesas. Todas elas já lá foram, todas se deram bem e por isso, pensei eu, o que me custa tentar? Acabei por lá ir na sexta-feira da semana passada.
A experiência foi péssima e uma desilusão total. Sabia que ia sair de lá todo dorido, mas nunca pensei que as dores na região lombar se propagassem também à região cervical, nem que o problema no ombro acabasse numa associação com um torcicolo duplo e um braço cheio de nódoas negras e de tal forma magoado que até a esponja do banho me magoava! Tenho passado uma semana terrível e no emprego passo o tempo a levantar-me pois a minha coluna não aguenta muito tempo aquela cadeira pavorosa que a minha entidade patronal me disponibilizou.
A sessão começou com uma consulta normal em que expliquei as minhas queixas. Seguiu-se a parte "física". Quem me massajava só me falava em "energias" e indicava-me locais onde se sentiam uns "altos" e onde eu sentia, invariavelmente, dor. Ao fim de um tempo de massagem começou a repetir várias vezes "o calor que está a sair. Isto é da energia acumulada". Na minha ignorância apenas conseguia pensar que todo aquele calor só poderia ser provocado por aquela "estranha" associação de factores que foi ter tido uma aula de natação (40 minutos em que faço sempre entre 1100 a 1300 metros), mais o duche e por fim toda aquela "massajação". Claro que o calor "energético" que o meu corpo emanava teve o condão, na altura, de me fazer passar pelo sofrimento sem sentir grandes dores enquanto a sessão durava.
Quanto aos tais "altos" que me doíam, passado 2 dias resolvi pesquisar o que há por baixo da pele naqueles pontos (vantagens de nunca ter saído da idade dos porquês, mas de já não aceitar os "porque sim"). Peguei numa enciclopédia médica que há cá por casa e descobri que aqueles pontos coincidiam com a junção dos músculos aos ligamentos! Se era para ter ou não "altos" nessa zona não faço ideia, mas pelo menos agora percebo ou penso perceber porque me doía sempre que me espetavam os dedos nessas zonas. Acho que os ligamentos não foram feitos para andarem a ser pressionados daquela forma!
E claro, sempre a conversa das "energias". Pareceu-me que aquilo era, para além de muito físico, também uma questão de fé. A forma como falavam, como diziam que eu tinha que "acreditar" fazia-me lembrar uma cerimónia de conversão a uma qualquer seita. Para um ateu este tipo de coisas é pior que fazer das tripas coração! Nunca peçam a um ateu para "ter fé" ou "acreditar". É o mesmo que dizer a uma pessoa de fé (lá está a palavra) que Deus não existe!
Para além das dores, outro resultado desta aventura foi ter aumentado o clube de indivíduos que olham para mim de lado, como quem olha para uma atracção de um freak show. Todos são "chinesamente" massajados e ficam felizes por isso. Eu fico pior. Assim, como se não bastassem as dores e o mal-estar ainda fiquei com a minha auto-estima diminuída. Sinto-me um anti-social nato.
Muita gente também me disse que, provavelmente, eu estaria tenso, daí as coisas não terem corrido bem. Admito que sim mas que querem? Para a medicina chinesa tudo está ligado e enquanto levava aquela sova falaram na ligação ao intestino grosso. Caramba, depois do braço direito e das costas terem sido bem calcados durante uma hora, que homem consegue descontrair ao ouvir falar no seu intestino grosso e imaginar o que se segue?

Queriam o Terreiro do Paço de volta, não queriam?

Pois é. Para aqueles que, como eu, ficaram contentíssimos ao verem o Cais das Colunas a renascer no meio daquele entulho e pensaram que finalmente iriam ter o Terreiro do Paço arranjado, trago uma notícia terrível: a partir do dia 2 de Janeiro de 2009 aquela praça fecha para obras durante 9 meses!
É que agora que aquilo está a ser finalmente reconstruído a CMLisboa resolveu fazer obras de saneamento, as quais implicam o fecho da placa central ao trânsito pedonal, ficando os peões restringidos a corredores à volta da praça, e a restrições e desvios do trânsito automóvel. E isto, repito, durante 9 meses!
Depois disto será que a Baixa ainda vai existir?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Porque me custa levantar cedo

Esta é daquelas frases que me irritam profundamente! Geralmente é proferida por quem nunca entende a minha "não pode ser mais cedo?". Irrita-me quando, no emprego, às 6 da tarde aparece sempre um energúmeno qualquer a pedir qualquer coisa "muito urgente".
- Não pode ficar para amanhã?
- Não, porque os utilizadores precisam muito disso!
- E vão precisar disso à noite?
- Não, mas amanhã de manhã já têm que ter.
- Nesse caso, amanhã de manhã faço isso. Antes das 8 e meia já cá estou!
- Pois, mas isso é muito cedo para mim!
- Azar! Agora também já é muito tarde para mim!
- Sim, mas às 8 e meia da manhã é muito cedo e custa-me a levantar!
E é assim que as coisas funcionam. Tal como há quem não goste de se levantar cedo, também há aqueles que, como eu, não têm problemas desses, mas têm o problema contrário de "não gostar de se deitar tarde". E, vá-se lá saber por que razão, estes são sempre não só vistos como "tipos estranhos", mas também pouco ou nada respeitados pelos outros.
E se para esses que não gostam de se levantar cedo é fácil de perceber que rendem mais da parte tarde, será assim tão difícil para eles perceber que para os que preferem levantar-se cedo é precisamente de manhã que as coisas rendem mais? É que para mim uma hora de trabalho matinal é muito diferente de uma hora de trabalho vespertina.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Há gajos porreiros

Numa época em que aparentemente toda a gente se está nas tintas para os outros e em que o egoísmo prevalece ainda aparece quem me surpreenda pelo altruísmo demonstrado. Foi o que me aconteceu há pouco mais de meia hora nos Restauradores e o protagonista foi um motorista da Carris: ao me ver a correr para o autocarro este motorista fechou a porta e arrancou a alta velocidade.
Com aquele gesto aquele Homem (sim, com H maiúsculo) fez com que eu apanhasse um táxi menos de 1 minuto depois, o qual me pôs à porta de casa apenas 10 minutos depois do senhor motorista da Carris ter fechado a porta e arrancado a alta velocidade.
Com aquele gesto aquele Homem fez-me poupar um bilhete da Carris (apesar de ser mais barato que uma viagem de táxi), uma viagem no meio da tropa maltrapilha que viaja no 759, uma dose de 15 a 20 minutos de música (não encontro outra palavra para descrever aquilo) que sai dos telemóveis e mp3s dos moçoilos que costumam viajar no 759 e mais uma sessão de gaseamento (lembram-se dos autocarros com cheiro?).
Com aquele gesto aquele Homem fez a Carris perder mais um passageiro/cliente, coisa que actualmente me deixa sempre extremamente feliz, e deu uma alegria a um taxista que ganhou uma corrida que, à partida, não era dele.
Com aquele gesto aquele Homem ganhou um aceno feito com um grande sentimento, daquele tipo que só do fundo do nosso Ser consegue vir, quando um certo táxi o ultrapassou na Praça do Comércio. E que gozo isso me deu.
Como vêem ainda há gajos porreiros neste mundo-cão povoado de filhos da mãe.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Qual é a pressa?

A passagem superior pedonal que ligava Alcântara-Terra a Alcântara-Mar foi desmantelada. Agora quem quer fazer esse trajecto terá que atravessar o cruzamento de Alcântara-Terra e a Avenida 24 de Julho. Se esta última travessia nem é muito problemática (apenas se perde tempo à espera do semáforo), já a primeira é um caos total. Para quem saia da estação de Alcântara-Terra as hipóteses são:
  1. atravessar o cruzamento "à maluca" junto à passagem de nível, numa zona onde não existe passagem de peões;
  2. contornar todo o largo onde desaguam as ruas Prior do Crato, Maria Pia e Vieira da Silva, o que significa passar por várias passagens de peões;
  3. passar para o outro lado da Avenida de Ceuta, atravessar o acesso que vem da ponte e voltar a atravessar a Avenida de Ceuta, voltando para o lado "original".
Tudo opções simples, certo?
Se é verdade que
a passagem superior não tinha as passadeiras a funcionar e tinha problemas de segurança (mesmo de dia metia medo), também não deixa de ser válido que a mesma permitia uma poupança de tempo e um aumento de segurança no que diz respeito às travessias destes cruzamentos.
E a mesma foi desmantelada agora nem se sabe bem porquê. É que, segundo informações surgidas na imprensa, quem a usava terá que esperar agora mais 4 (quatro) anos por uma alternativa, a qual depende de um tal projecto "Nova Alcântara".
Sabendo nós como funcionam estes projectos, que tanto podem ser feitos já, como daqui a 40 anos ou nem sequer sair da gaveta, qual a razão para tanta pressa no desmantelamento daquela estrutura? E quantos atropelamentos irão ocorrer durante as "pressas" de se passar de um comboio para outro, principalmente junto à estação de Alcântara-Terra?
Incompetência, é o nome que se dá a isto!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Às vezes sou mesmo um ignaro!

Três homens são presos pela polícia por posse de armas proíbidas entre as quais uma besta (lê-se bésta e não bêsta como oiço muita gente dizer, jornalistas incluídos) e duas réplicas de metralhadoras. Acabaram por não ir a tribunal e, por isso, ficaram em liberdade “para não prejudicar a investigação” após interrogatório na polícia e com o acordo entre esta e o ministério público. A polícia afirma que não tem dúvidas quanto ao facto de que estes homens irão ficar em prisão preventiva quando chegar a altura certa! Todos eles já são cadastrados.
Agora ficam as minhas dúvidas (nunca saí da idade dos porquês):
  1. Se não era a altura certa para os prender para não prejudicar as investigações, então porque o fizeram?
  2. Ao aparecer na imprensa que a polícia tem a certeza de que eles ficarão presos na altura certa, deixar-se-ão eles ficar sentados em casa a ver televisão à espera que alguém os vá buscar?
Sou ou não sou um ignaro?